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Orê Yeyê ô!
Oxum é muito bonita,
dengosa e vaidosa, como são geralmente as belas mulheres. Ela gosta de
panos vistosos, marrafas de tartaruga e tem, sobretudo, uma grande paixão
por jóias. Só uma mulher elegante como Oxum, pode possuir grandes e
pesadas jóias.
Oxum tem o humor
caprichoso e mutável. Alguns dias, suas águas correm aprazíveis e
calmas, deslizando com graça, frescas e límpidas por entre margens
cobertas de brilhante vegetação. Numerosos vãos permitem atravessar de
um lado para outro. Outras vezes, suas águas tumultuadas passam
estrondando, cheias de correnteza e torvelinhos, transbordando e inundando
campos e florestas. Ninguém poderia atravessar de uma margem à outra,
pois Oxum não toleraria tamanha ousadia!
Olowu, rei de OWU,
seguido de seu exército ia para guerra. Por infelicidade tinha que
atravessar o rio, num dia que este estava encolerizado. Olowu fez a Oxum
uma promessa solene, entretanto mal formulada. Ele declarou que se ela
baixasse o nível da águas para que ele e seu exército atravessassem, e
os protegesse na guerra fazendo-o vencedor, ao voltar ele lhe entregaria
"nkan rere", isto é, "boas coisas". Oxum compreeendeu
que ele falava de sua mulher, Nkan, filha do rei de Ibadan. Ela baixou as
águas e Olowu continuou sua expedição.
Quando ele voltou,
algum tempo depois, vitorioso e com um espólio considerável, novamente
encontrou Oxum com o humor perturbado. O rio estava turbulento e com suas
águas agitadas. Olowu mandou jogar sobre suas vagas toda a sorte de boas
coisas, as nkan rere prometidas. mas Oxum devolveu todas sobre a margem.
Era Nkan, a mulher de Olowu que Oxum exigia. Olowu foi obrigado a
submeter-se e jogou para as águas Nkan, que estava grávida. A criança
nasceu no fundo do rio e Oxum o devolveu para Olowu dizendo: "É Nkan
que me foi prometida, não a criança. Tome-a!". As águas baixaram e
Olowu voltou tristemente para suas terras.
O rei de Ibadan ao
saber do fim trágico de sua filha, indignado declarou : "Não foi
para que ela servisse de oferenda que eu a dei em casamento para Olowu!".
Ele guerreou com o genro e o expulsou do país.
CONHECENDO
MAIS SOBRE OXUM
Oxun
é a divindade do rio do mesmo nome que corre na Nigéria, nas regiões Ijexá
e Ijebú. Era, segundo dizem, a segunda mulher
de Xangô, tendo vivido antes com Ogun, Orunmila,
e Oxossi, seu pai teria sido Oxalá. As mulheres que desejam ter filhos
dirigem-se a Ogun pois ela, com efeito
controla a fecundidade, graças aos laços mantidos com Iyami-Ajé,
"Minha Mãe Feiticeira". Sobre esse assunto, uma lenda conta que
"quando todos os Orixás chegaram à terra
organizaram reuniões onde as mulheres não eram admitidas. Oxun
ficou aborrecida por ser posta de lado e não poder participar de todas as
deliberações. Para vingar-se, tornou as mulheres estéreis e impediu que
as atividades desenvolvidas pelos deuses chegassem a resultados favoráveis.
Desesperados, os Orixás voltaram a Olodumaré
e explicaram-lhe as coisas iam mal sobre a terra. Olodumaré
perguntou se Oxum participava das reuniões e os Orixás responderam que não.
Olodumaré explicou-lhes então que que,
sem a presença de Oxun e do seu poder sobre a
fecundidade, nenhum de seus empreendimentos poderiam dar certo. De volta
à terra, os Orixás convidaram Oxun para
participar de seus trabalhos o que ela acabou por aceitar, depois de muito
lhe rogarem . Logo em seguida, as mulheres tornaram-se fecundas e todos os
projetos obtiveram felizes resultados".
Oxun é chamada de Iyalodê,
título conferido à pessoa que ocupa o lugar mais importante entre todas
as mulheres da cidade. Os Axés de Oxun
constituem-se de pedras do fundo do rio do mesmo nome, de jóias de cobre
e de um pente de tartaruga.
O amor de Oxun pelo cobre - metal mais
precioso do país Yorubá nos tampos antigos -
é mencionado nas saudações que lhe são dirigidas:
"Mulher elegante que tem jóias de cobre
maciço.
É uma cliente dos mercadores de cobre.
Oxun limpa suas jóias de cobre antes de
limpar seus filhos".
Numerosos lugares profundos, Ibus, entre Igedê,
onde nasce o rio, e leké, onde eles
deságua na lagoa, são os locais de residência de Oxun.
Aí, ela é adorada sob nomes diferentes e suas características são
distintas umas das outras. Encontramos:
"Oxun Ijumú,
rainha de todas as Oxuns e que, como a que vem a seguir, está em estreita
ligação com as bruxas, Ajés;
Oxun Ayalá ou Oxun
Aynlá, a Grande Mãe (a Avó) que foi a
mulher de Ogun;
Oxun Oxogbô, cuja
fama é grande por ajudar as mulheres a ter crianças;
Oxun Apará, a
mais jovem de todas, de gênio belicoso;
Oxun Abotô, muito
feminina e elegante;
Oxun Abalú, a
mais velha de todas;
Yeyê Ipetú;
Yeyê Ipondá,
guerreira;
Yeyê Karé, muito
guerreira;
Oxun Popolocum,
cujo culto é realizado próximo à lagoa e que, diz-se no Brasil, não
sobe à cabeça das pessoas".
Apesar
de todos esses nomes e características diversas é sempre a única e
mesma Oxun.
Sobre Oxun Ayalá,
também chamada de Oxun Ayanlá,
a Avó, diz-se que era uma mulher poderosa e guerreira que ajudava Odun
Alagbedé, seu espojo, na forja, na mesma
maneira que Oyá, como vimos no capítulo
precedente. Ogun forjava e, quando o ferro
começava a esfriar, ele o colocava no fogo, atiçado por Oxun
que fazia funcionar os foles em cadência. O barulho que eles faziam
"kutu, kutu, kutu",
era tão ritmado que parecia qu oxu
tocava um instrumento de música. Um Egungun
que passava pela rua se pôs a dançar, inspirado pelos sons que provinham
dos foles. Os passantes maravilhados testemunharam seu contentamento
oferecendo dinheiro a Egungun. Este, muito
honestamente, ofereceu metade da soma recolhida a Oxun,
a Avó, o que lhe valeu ser denominada de:
"Tocadora de música num fole para fazer
dançar Egungun.
Proprietária de um fole que sussurra como a chuva, e cuja tosse ressoa
como explode o cobre e como urra o elefante".
Laços muito estreitos existem entre Oxun e os
reis de Oxogbô. Neste lugar, a festa anual
das oferendas a Oxun é uma comemoração pela
chegada de Larô, fundador da dinastia, às
margens deste rio cujas águas correm permanentemente. Larô,
depois de muitas atribulações, achando o lugar favorável ao
estabelecimento de uma cidade, aí se fixou com sua gente. Alguns dias
depois de sua chegada, uma de suas filhas foi se banhar num rio e se
perdeu sob as águas. reapareceu no dia seguinte,
soberbamente vestida, declarando ter sido muito bem acolhida pela
divindade do rio. Larô, para
demonstrar sua gratidão, dedicou-lhe oferendas. Numerosos peixes,
mensageiros da divindade, vieram comer em sinal de aceitação, as comidas
que Larô havia jogado nas águas. Um grande
peixe que nadava próximo ao local onde este se encontrava cuspiu-lhe água.
Larô recolheu esta água numa cabaça e
bebeu, fazendo assim um pacto de aliança como rio. Estendeu, depois, as
duas mãos para frente e o grande peixe saltou sobre elas. Larô
recebeu o título de Ataojá - contração da
frase Yorubá A tewo
gba ejá,
"Ele estende as mãos e recebe o peixe" - e declarou: Oxun
gbô, "Oxun
está em estado de maturidade", suas águas serão sempre abundantes,
esta foi a origem do nome do cidad
de Oxogbô.
No dia da festa anual, Ataojá vai solenemente
até as margens do rio. Sua cabeça é coberta por uma coroa monumental
feita com pequenas missangas reunidas e é
vestido com pesada roupa de veludo. Anda com calma e gravidade, rodeado
por suas mulheres e seus dignatários. Uma de sua
s filhas leva, nesta procissão anual, a cabaça contendo os
objetos sagrados de Oxun. É a Arugbá
Oxun, "aquela que leva a cabaça de Oxun".
Ela representa a moça que outrora desaparecera no rio. Sua pessoa é
sagrada, e o próprio rei inclina-se à sua frente. Depois que atinge a
idade da puberdade ela nào pode mais
preencher essa função. Mas, pela graça de Oxun,
a descendência de Ataojá é sempre numerosa,
não faltando, pois, a possibilidade de se encontrar uma Arugbá
Oxun disponível.
Ataojá senta-se numa clareira e acolhe as
pessoas que vem assistir a cerimônia. Os reis e os chefes das cidades
vizinhas estão todos presentes ou enviaram representantes. as delegações
chegam, uma após a outra, acompanhadas por tocadores
de tambores. Trocas de saudações, prosternações e danças
sucedem-se como formas de cortesia recíproca, com animação crescente.
Ao
final da manhã, Ataojá, acompanhado pelo seu
povo e pelos seus hóspedes, aproxima-se do rio e aí manda lançar
oferendas e comidas, no mesmo lugar onde Larô
o fizera outrora. Os peixes as disputam sob o olhar atento das
sacerdotisas de Oxun.
Ataojá dirige-se, a seguir, até as
proximidades de um pequeno templo vizinho e senta-se sobre a pedra onde
seu ancestral Larô havia repousado em outros
tempos. A adivinhação é feita para saber se Oxun
está satisfeita e s ela tem alguma vontade de exprimir. Ataojá
volta em seguida para a clareira, onde recebe e trata seus convidados com
uma generosidade digna da reputação de Oxun,
a rainha de todos os rios.
No Brasil, os adeptos de Oxun usam colares de
contas de vidro de cor amarelo-ouro e numerosos braceletes de latão. o
dia da semana que lhe é consagrado é o sábado e ela é saudada, como na
África, pela expressão Oré Yeyé
o!!!. "Chamemos a benevolência da Mãe !!!".
É recomendável fazer sacrifícios de cabra a Oxun
e ofercer-lhe patos de Molokun
(mistura de cebolas, feijão de espécie fradinho, sal e camarões), de Adúm
(farinha de milho misturada com mel de abelha e azeite doce). A sua dança
lembra o comportamento de uma mulher vaidosa e sedutora que vai ao rio
para se banhar, enfeita-se com colares, agita os braços para fazer
tilintar os seus braceletes, abana-se graciosamente e contempla-se com
satisfação num espelho. O ritmo que acompanha as
suas danças denomina-se Igexá, nome
de uma região da África, por onde corre o rio Oxun.
Ela é sincretizada, no Brasil, com Nossa
Senhora das Candeias (na Bahia) e nossa Senhora dos Prazeres (em Recife),
enquanto que em cuba é assimilada a Nossa Senhora da Caridade, cuja
igreja encontra-se em El Cobre.
O arquétipo de Oxun é o das mulheres
graciosas e elegantes, com paixão pelas jóias, perfumes, vestimentas
caras. Das mulheres que são símbolo do charme e da beleza. Voluptuosas e
sensuais, porém mais reservadas que Oyá.
Elas evitam chocar a opinião pública à qual dão grande importância.
Sobre sua aparência graciosa e sedutora escondem uma vontade muito forte
e um grande desejo de ascensão social
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